Visitar ou não as locações?

Escrever uma cena, como eu fiz, que se passa num cemitério específico (o meu, por questões sonoras, e de certa forma geográficas, boa parte da ação se passa em um bairro de João Pessoa, é o Senhor da Boa Sentença), me obriga a ir lá e conferir ‘in loco’ detalhes do local?

Mais que trazer à trama aspectos de crônica, o meu interesse  foi marcar a revelação de uma dupla identidade do personagem do Vingador (vamos chamá-lo assim). Há, como subtrama, um litígio entre nosso herói com uma grande estrutura, a qual ele pertenceu e com a qual ele rompe abertamente. Na cena, acontece um ensaio de dissensão da parte poderosa, que faz uma proposta para cessar fogo. O morto em questão era alguém conciliador entre as duas partes.

Lendo o que acabo de escrever – os parágrafos iniciais desse post –  parece tão esquematizado, tão calculado, tão frio… Aprecio colocar muitas ações, pequenos conflitos, talvez uma lição do teatro, de fazer com que a cena fique viva. Como, de alguma maneira, presto um tributo ao ‘Hamlet’, ponho em cena dois coveiros e a um deles atribuo um papel com alguma importância.

Inventei até de meter uma citação.

Me pareceu algo forçada.

Vou ver se consigo salvá-la nas versões seguintes. Se não ficar ao meu gosto, corto-a. O ambiente e os personagens já são uma evocação muito forte, acho que a citação é dispensável.

Esta escritura, cumpre dizer, é a primeira de-mão.

Escrevo sem revisar; querendo ler que história escrevo.

Aliás, a respeito disso, da maneira como a história caminha, devo escrever noutra ocasião. Neste primeiro momento, me interessa saber que narrativa desejo contar.

A revisão imediata é para ajustar o esquematismo e o cálculo.

Acredito que ir ao Senhor da Boa Sentença não contribua muito para o principal, para o que eu quero dizer. Talvez, saber suas latitudes, as ferrugens dos portões, a disposições das lápides,  me ajude no colorido. Nas cenas descritivas. Nos ambientes nos quais os personagens circulem.

Devo fazer a visita num segundo momento. Antes de iniciar a segunda escritura, o segundo corte.

Por outro lado, como disse Spielberg, não é preciso ser um E.T para escrever sobre um. E, tampouco, é necessário cometer um crime para fazer um romance policial.

Não, porém, se me apetece ir em alguns lugares que menciono no romance. Alguns, eu já percorri e frequentei há muito tempo e os tenho vivos na memória; outros, sim, terei de ir e experienciar, tomar notas e tal.

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